Se não existisse dinheiro, o que você faria?

Quanto mais o tempo vai passando, mais eu sinto necessidade de dinheiro. Estou ficando cada dia mais velha, em algum momento vou precisar sair de casa, pagar minhas contas, ir em busca da minha independência.

Essas necessidades para viver, na sociedade atual, me fazem necessitar de dinheiro, mas no fundo, eu não quero dinheiro, só quero viver.

Se não existisse dinheiro eu viveria.

Se eu pudesse escolher como eu viveria, sem me preocupar com nada, com certeza não trabalharia. Não escreveria todos os dias, nem daria palestra todos os dias, nem pesquisaria todos os dias, nem estudaria todos os dias para me tornar uma profissional melhor.

Não passaria horas na frente do computador ou mexendo no celular.

Eu viveria se não existisse dinheiro. Mais do que isso, eu viveria como eu quero viver.

O problema é que, mesmo que não existisse dinheiro, eu ainda teria responsabilidades que iriam me obrigar a viver de uma forma diferente da que eu quero viver.

Por isso aceito viver pelo dinheiro. Responsabilidades estão em todos os lugares. E pensar dessa maneira é o que me convenceu (e convence diariamente) a continuar trabalhando, a continuar me profissionalizando.

Então, com esperanças, um dia, depois de eu ter me exaurido de trabalhar, com certeza vou ter muito dinheiro para viver a vida da maneira que sempre sonhei. Pelo menos é o que espero. Pelo menos é o que todos nós esperamos.

Mas como saber qual a maneira de viver que sempre sonhei quando todos os meus sonhos parecem estar sendo moldados pelas pessoas ao meu redor? Pelas empresas ao meu redor? Pelas promessas ao meu redor?

Como saber como eu quero viver se tudo parece ter sido forçado goela abaixo?

No fim, não tem conclusão nenhuma.

Só quero saber, se não existisse dinheiro, o que você faria? 

Minha resposta é simples: nada.

Olhai os lírios e o que eles dizem.

Vejo um campo de lírios que dançam conforme o vento. Vejo o sol que os aquece e nutre. Vejo as nuvens e o céu pincelado colorido e uma estrada disposta ao meu caminhar.

Sou uma pessoa com medos, a rotina é um deles. Viver e reviver momentos infinitos, me desespera, mas, curiosamente, quando penso em trilhar o campo, meu coração se entrega a uma sensação de alegria.

Por mais que a ideia do eterno me cause gastura – e imagino que até a paz eterna canse – algo me chama para o trilho dos lírios. E, curiosamente, quero aceitar.

Me imagino a caminhar por todo o campo, andando eternamente com o sol sob a pele, sentindo o cheiro da mata, apreciando com os olhos a boa vista do céu.

É tão bonito, devo dizer, tão pacífico. Mas passageiro, porque onde se faz muito sol, muita chuva vem e vai ver que é por isso que eu me atento a ir: sei que nada é eterno, mesmo que doído, mesmo que feliz; nada é eterno.

Para a lua

Seu brilho
mistério
e estabilidade.
Seus segredos e histórias,
suas rochas e feridas,
seus anos de sabedoria.

Como pode ainda
ser tão humilde e compartilhar essa infinita habilidade que é viver
te contemplando e estudando, nos saciando e permitindo que vá aí te conhecer?

Como pode ainda controlar nossos mares e manter a vida
sabendo que estamos aqui para destruir
você?

Caro, sabiá

Quando olho para o sabiá
e vejo que sabe cansar
me envergonho com sua presença,
porque apesar da consciência,
não tenho nada para o oferecer.

E o que precisaria mais? Vive, come, bebe e canta. Seus dias são completos e o invejo por isto o bastar: eu, humano, trabalho, deito, durmo e 
em pranto
entro
por ser o que sou.

Queria eu viver como o sabiá que só sabe cantar. 
Sabiá, com toda sua sabedoria, compartilha comigo seus segredos da vida.

Queria eu viver como o sabiá que só sabe cantar...

Sabiá, então me fala! 
Com toda sua sabedoria, compartilha comigo seus segredos da vida,
me diz o que preciso para viver como sua sábia existência,
ô meu caro sabiá.

Liberdade não é para todo mundo

Os pássaros são tão livres…
…Isso quando não estão preso em gaiolas.

Olhando para o céu, buscando imagens nas nuvens, com a pele aquecendo debaixo do sol. Essas eram as sensações que sentiam ao absorver o fato de que nem os pássaros são seres livres, o tempo todo. Se nem os pássaros são, apesar de selvagens, como poderiam eles?

Mas as gaiolas foram impostas aos pássaros. Se elas não existissem, com certeza os pássaros seriam livres. Quer dizer, eles são livres. Você entendeu.
Sim, as gaiolas foram impostas.

O céu continua azul e o sol amarelo. Nenhum deles escolheu ser como é, mas ainda assim são com excelência o que são.
Contemplar a imensidão acima é de uma beleza imensurável. Ambos percebem a raridade da existência, e lamentam.

Por que não podemos controlar nosso próprio destino?
Porque nascemos na hora errada, no lugar errado e no corpo errado.

Do outro lado do mundo, um caçador ilegal deixou escapar uma arara azul, enquanto, seu colega, caçou duas.
“Nosso dia de sorte”, pensou um deles.

Pessoas, casas, o que fazem

Vejo tantas janelas abertas. Imagino o que as pessoas dentro de suas casas fazem. Será que brincam? Conversam sobre política? Assistem filmes? Escrevem histórias? Discutem com seus familiares? Refletem sobre a própria existência?

O que será que as pessoas dentro de suas casas fazem? Eu como uma pessoa, dentro de uma casa, deveria saber. Mas há tantas pessoas diferentes, com gostos e hábitos diferentes, não cabe a mim ser voz de todas elas. De saber sobre todas elas. O que será que as pessoas dentro de suas casas fazem? O que será que pessoas sem casa fazem?

O que será que pessoas sem casa fazem? Ou melhor, o que será que deveriam fazer?

Quanto mais resistimos, mais difícil a aceitação

Por volta dos meus 10 anos minha cachorra morreu. Lembro da minha mãe me dando a notícia e eu balançando a cabeça de um lado para o outro dizendo “não, não, não”.
Eu não conseguia aceitar, não queria aceitar. E como poderia? Estavam falando que minha melhor amiga havia morrido e eu nem estava pronta.

Não que tenha como se preparar para a morte de alguém querido, mas se eu tivesse a consciência de que todo mundo morre uma hora ou outra e “está tudo bem”, porque é natural da vida, talvez eu não tivesse sofrido tanto com a perda dela.

O luto e sofrimento durou anos. Todo dia acordava na esperança de ela aparecer na porta da minha casa e sua morte não passar de um delírio, de um mal entendido. Me apegava a falsas esperanças. Me iludia, resistindo a verdade. Foram noite de gritos, de culpa, de raiva. Um sofrimento infinito tomava conta de mim, um sofrimento doloroso. Até que, depois de muito tempo, uma chave virou e eu aceitei a situação em que eu estava.

Agora, tempos depois, vejo que essa chave virou graças a maturidade adquirida trabalhando a tríade resistência-sofrimento-aceitação. O engraçado é que eu trabalhava essa tríade sem saber. Na realidade, falei com minha terapeuta na última sessão, acredito que todos nós trabalhamos a mesma tríade, sem saber.

A todo momento na vida estamos resistindo a situações e sofrendo por conta delas, tentando achar soluções. O problema é que a verdadeira solução é uma só: aceitar.

A partir da aceitação o sofrimento reduz, nossa cabeça fica mais leve para pensar podendo, enfim, ir atrás de soluções lógicas.

Quando falo sobre aceitar, talvez você se pergunte “aceitar o que?”, bom, eu te respondo: aceitar a situação merda que você está, aceitar aquele problema difícil que está passando, aceitar seus sentimentos de raiva, de dor, de estresse, ódio. Aceitar sua paixão por alguém. Aceitar tudo o que você tenta resistir. Encarar cara-a-cara cada um desses elementos e os abraçar, dizendo “tá tudo bem, eu to te vendo, não vou te ignorar ou te silenciar”. Aceitar que você é um ser humano, que não tem como você ser perfeito. Aceitar que é aceitando que as melhores soluções vão vir até você. É aceitando a vida da forma como ela é, que a vida flui.

Em 2019 eu estava passando por um dos períodos mais turbulentos da minha vida, e quando tudo parecia muito vazio eu ia andar à noite na Avenida Paulista. Nessas caminhadas se acumularam muitas histórias, mas houve uma que me marcou mais. E ela me passou essa lição de vida, sobre a ideia de aceitar onde estamos – e não só isso, mas também entender o outro.

Era por volta de 21:00, de uma sexta-feira. Eu estava sentada na frente do banco Safra, ao lado de uma das entradas da Rua Augusta. Fumava meu cigarro com a cabeça perturbada e um rapaz, de no máximo 30 anos, se sentou ao meu lado.

Suas roupas eram velhas, seus cabelos estavam com dreadlocks e sua mão usava uma daquelas luvas que mostram os dedos. Ele também fumava.

Não sei quem puxou assunto com quem primeiro, mas chegamos no ponto de ele me pedir para trocarmos dois cigarros, porque ele queria provar do meu. Resolvi dar o maço inteiro para ele.

Eu estava com uma mochila grande, com vários agasalhos para distribuir, era Julho em São Paulo e estava um frio de lascar. Perguntei para o rapaz, que se chamava Atos, se ele estava precisando de agasalhos ou se conhecia alguém que precisava.

    “Tem uns menininhos que vão aparecer logo mais, aí você entrega pra eles. Eles são mesmo moradores de rua, eu ainda tenho meu espaço.”

    Só balancei a cabeça e mudei de assunto. Continuamos conversando, jogando papo fora, tentando entender a vida. Trocamos experiências e estava sendo ótimo ouvir alguém.
    Os meninos chegaram, cumprimentaram Atos e falaram um “oi” distante para mim.

    “Esses são os meninos que falei que gostariam das roupas.”

    Tirei da mochila todos os agasalhos e distribuí.

    “Vai ser útil para vocês?”, eu perguntei.

    “Claro moça, mó frio dá porr*!”, achei graça no jeito que falou, “Ah, e toma aqui uma bala, não tenho mais nada para te dar, então toma aqui uma bala”.

    Aquela era uma das balas da caixa que ele estava vendendo. Meu coração apertou, porque não queria aceitar, então só disse “você precisa mais dessa bala do que eu, pode ficar”.

    O menino ficou quieto por um tempo, mas depois disse:

    “Hoje eu recebi três caixas de bala para vender e cinco agasalhos, dar essa bala para você é o mínimo que eu posso fazer.”

    E eu aceitei. Meu peito apertou, mas eu aceitei. E deu para ver em seu olhar que ele também teve de aceitar que dar a bala era o possível para ele fazer naquele momento, como forma de gratidão. Deu para ver em seu olhar que ele tinha de aceitar o que acontecia com ele porque só aceitando que ele poderia fazer algo a respeito. E meu peito apertava. Escrevendo isso, meu peito aperta.

  Aconteceu muita coisa depois disso, mas esse momento dele me dando a bala como forma de agradecimento me pegou de jeito no peito. Ter que aceitar que existem pessoas que vivem assim é algo que me pesa muito o coração, e para muitas pessoas que vivem assim, também é difícil aceitar a situação que estão. Mas elas aceitam, porque não dá para resistir. E cabe a mim também aceitar, para poder um dia fazer algo maior para todas elas. É aceitando que a mudança flui.

 No fim, o que quero falar é: não resistam, aceitem. Mas não aceite e “deixe o universo trabalhar ao seu favor”. Se imponha. Seja uma pessoa ativa na sua vida. Aceitar que essa é sua vida, seus sentimentos, seus problemas é um bom começo para se tornar ativo. Aceitar que, apesar de você não controlar muitas coisas, você é capaz de controlar se escolhe aceitar ou não. Então, escolha aceitar.

 Sofra e aceite o sofrimento. Não resista ao sofrimento. E não resista ao amor. Não resista às coisas boas que te acontecem, nem às ruins. Aceite. É só isso que tenho para te dizer: aceite.

A escrita para mim

Não sei outros escritores, mas não consigo planejar bem um texto no papel antes de me pôr a escrever.

Geralmente, são as primeiras palavras que me brotam na cabeça com uma ideia, e assim, surge uma dança improvisada entre letras, períodos e parágrafos.

Me pergunto, será que o texto já mora no autor antes mesmo dele perceber sua existência? Se um dia vir a publicar um livro, me pergunto, será que o livro já morava em mim a todo momento, só me faltava foco e paciência para o desenterrar?

Muitas vezes sinto que tudo ao nosso redor funciona dessa forma. As palavras que buscamos usar num diálogo parecem que nasceram prontas para aquele momento. Um “eu te amo” que sai sem perceber e não aguentava mais morar no coração. Uma história, ainda não escrita, que já parece ter vida antes mesmo de existir – e por isso, ao escrever, ela só vem e vem e vem, não para nunca.

Não sei para os outros escritores qual a relação que cultivaram com a escrita, mas o meu relacionamento é bem sadio. Devo não mentir, há sim momentos em que ela me consome mais do que estou pronta, e acabo me esgotando antes de perceber; há também momentos em que a procuro por toda parte e não encontro nada mais que balbucios – o que me frustra, preciso que se entregue inteiramente para mim, não posso sobreviver com suas metades, queridos textos.

A escrita para mim se desdobra como uma casa segura, mas, em simultâneo, cheia de surpresas, agradáveis ou não. A escrita me salvou tantas vezes que não é possível quantificar; me entregou respostas para dúvidas que me atormentavam. 

A escrita é uma ferramenta para viver melhor a vida, tenho consciência disso. Não só para viver melhor minha a vida, mas também para formar a sociedade, em sua totalidade, melhor e educada.

A escrita não é o fim em si, diferente do que muitos pensam. Ela é o meio, e por um bom tempo não a aceitavam como um meio (mania de artista, querer que tudo seja apenas um fim em si, como a própria vida). Contudo, sua importância e eficiência jazem justamente no fato de ser um meio: de escapar de si, de transpirar para dentro, de se alojar em outros mundos, de partir.

Digo mais, não só a escrita é o meio, mas toda forma de expressão. E quando falamos de expressão, falamos de Arte e bom… isso já é assunto para uma próxima postagem.

É tão bom reparar a vida

é tão bom reparar na vida.
olhar através de uma janela e enxergar o que ela tem para propor.
entender um poema, as exatas palavras, o que cada uma delas querem me dizer,
uma ideia genial, o sorriso de alguém, a folha do arbusto na esquina caída.

é tão bom andar debaixo do sol,
e debaixo do céu nublado,
e debaixo da chuva voltar para casa encharcado.

é tão bom reparar na vida,
notar o quão infinita é,
se deixar levar pelos dias
e se preencher pelos detalhes intrínsecos
que fogem a cada pressa.