A gaveta

    As crianças já haviam descido para o almoço, João vasculhava papéis antigos na gaveta do nosso quarto e a fumaça silenciosa que pairava entre nós me sufocava os pulmões. Minhas mãos tremiam; para não evidenciar o medo apertei o mais forte que pude o lençol da cama. A paciência com que continuava revirando a gaveta me arrepiava a espinha; sei que não tenho nada para esconder, mas e se eu tiver? Essa pedra me prende há tanto tempo que não sou mais capaz de confiar em mim; já não sei dizer se sou má ou boa pessoa, meus passos são imprevisíveis; o único indivíduo que parece me conhecer é João. Penso, será que ele diz me conhecer por saber que faço tudo o que pede? Minha liberdade foi abandonada há tanto tempo…
    Faz anos que não escolho o que comer, vestir, falar. Faz anos que não escolho como devo agir. A breve vida que tenho se desenrola para servir João. Não tenho mais liberdade e é por isso que tenho medo do silêncio entre nós, e é por isso que tenho medo dele encontrar algo nessa maldita gaveta. Quem dita a verdade é ele.

    Ao fim da minha última respiração, quando meus pulmões se encontravam vazios, ele levantou um papel. A falta de ar que senti, imagino que deva ser assim respirar na Lua. Vagarosamente seu corpo se virou ao meu, seus olhos caíram sobre minhas mãos e, maliciosamente, abriu um sorriso. Meu corpo todo entregava culpa, por mais que ela não existisse. Não tenho mais liberdade, não escolho como portar, meus membros não respondem mais a mim, respondem a João. Sem que eu me desse conta, agressivamente suas mãos encontraram meu rosto; o interior da minha bochecha cortou; o sabor tão familiar do sangue, o soluço ameaçando sair, o latejar da cabeça, o aquecer da pele – tudo tão familiar… quanto a brisa quente do verão.

    “Você já sabe. Se chorar…”

    Ele faz de propósito, sabe que meu corpo responde aos seus desejos, ele quer que eu chore; ele gosta da sensação de manipular uma mulher, como se fosse uma marionete; sente prazer ao me ver de olhos inchados, ajoelhada, implorando por misericórdia e perdão – mesmo que eu não tenha feito nada. E por meu corpo saber de tudo isso, mergulha por entre suas próprias lágrimas; o soluço deve ser quieto, os gritos abafados; as crianças almoçam no andar de baixo. Com cautela, minha dor se consolida e os prantos se solidificam como massas de modelar. Com cautela sou obrigada a sentir. Mais uma bofetada na cara, dessa vez me pegou os olhos, imagino o quão vermelho está.

    “Você sabe o que você fez?” Não.

    “Sim.”

    “O que você fez, Marília?” Eu não sei!

    “Te decepcionei.”

    “Isso você faz só de existir. Então vou perguntar de novo, o que você fez, Marília?”

    A calma na sua voz, na sua postura, no seu olhar. Como alguém pode ser tão cruel? Como alguém tão cruel pode ser tão bom pai? Ter sido uma vez tão bom marido? Ser tão boa pessoa? Como esse indivíduo que me faz tremer as pernas como um cachorro prestes a ser espancado, pode ter feito com que eu sentisse os melhores prazeres da vida? Onde foi que eu errei? Como fui capaz de transformar ele, nisso?

    “Me desculpa.”

    “Pelo quê, Marília? O que você fez pra estar me pedindo desculpas?”

    “Desenvolvi em você tanta raiva, tanto ódio que nem sei de onde vem. Te transformei numa pessoa completamente nova e horrível, simplesmente por existir. Te dei filhos dos quais você nem gosta tanto. Gastei seu tempo com esse pedaço de lixo que sou eu…”

    “Sim, sim, você fez tudo isso, mas agora, foca no agora, o que foi que você fez?”

    “EU NÃO SEI, JOÃO!”

    “Nesse caso…”

    Mais uma bofetada na cara, do outro lado do rosto. As lágrimas não param de descer, meu peito não para de comprimir. Fico tonta.

    “Sabe o que você fez?” Uma voz baixa sussurra na minha cabeça um infantil, não. “A gaveta, Marília. A gaveta está bagunçada.”

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