Quanto mais resistimos, mais difícil a aceitação

Por volta dos meus 10 anos minha cachorra morreu. Lembro da minha mãe me dando a notícia e eu balançando a cabeça de um lado para o outro dizendo “não, não, não”.
Eu não conseguia aceitar, não queria aceitar. E como poderia? Estavam falando que minha melhor amiga havia morrido e eu nem estava pronta.

Não que tenha como se preparar para a morte de alguém querido, mas se eu tivesse a consciência de que todo mundo morre uma hora ou outra e “está tudo bem”, porque é natural da vida, talvez eu não tivesse sofrido tanto com a perda dela.

O luto e sofrimento durou anos. Todo dia acordava na esperança de ela aparecer na porta da minha casa e sua morte não passar de um delírio, de um mal entendido. Me apegava a falsas esperanças. Me iludia, resistindo a verdade. Foram noite de gritos, de culpa, de raiva. Um sofrimento infinito tomava conta de mim, um sofrimento doloroso. Até que, depois de muito tempo, uma chave virou e eu aceitei a situação em que eu estava.

Agora, tempos depois, vejo que essa chave virou graças a maturidade adquirida trabalhando a tríade resistência-sofrimento-aceitação. O engraçado é que eu trabalhava essa tríade sem saber. Na realidade, falei com minha terapeuta na última sessão, acredito que todos nós trabalhamos a mesma tríade, sem saber.

A todo momento na vida estamos resistindo a situações e sofrendo por conta delas, tentando achar soluções. O problema é que a verdadeira solução é uma só: aceitar.

A partir da aceitação o sofrimento reduz, nossa cabeça fica mais leve para pensar podendo, enfim, ir atrás de soluções lógicas.

Quando falo sobre aceitar, talvez você se pergunte “aceitar o que?”, bom, eu te respondo: aceitar a situação merda que você está, aceitar aquele problema difícil que está passando, aceitar seus sentimentos de raiva, de dor, de estresse, ódio. Aceitar sua paixão por alguém. Aceitar tudo o que você tenta resistir. Encarar cara-a-cara cada um desses elementos e os abraçar, dizendo “tá tudo bem, eu to te vendo, não vou te ignorar ou te silenciar”. Aceitar que você é um ser humano, que não tem como você ser perfeito. Aceitar que é aceitando que as melhores soluções vão vir até você. É aceitando a vida da forma como ela é, que a vida flui.

Em 2019 eu estava passando por um dos períodos mais turbulentos da minha vida, e quando tudo parecia muito vazio eu ia andar à noite na Avenida Paulista. Nessas caminhadas se acumularam muitas histórias, mas houve uma que me marcou mais. E ela me passou essa lição de vida, sobre a ideia de aceitar onde estamos – e não só isso, mas também entender o outro.

Era por volta de 21:00, de uma sexta-feira. Eu estava sentada na frente do banco Safra, ao lado de uma das entradas da Rua Augusta. Fumava meu cigarro com a cabeça perturbada e um rapaz, de no máximo 30 anos, se sentou ao meu lado.

Suas roupas eram velhas, seus cabelos estavam com dreadlocks e sua mão usava uma daquelas luvas que mostram os dedos. Ele também fumava.

Não sei quem puxou assunto com quem primeiro, mas chegamos no ponto de ele me pedir para trocarmos dois cigarros, porque ele queria provar do meu. Resolvi dar o maço inteiro para ele.

Eu estava com uma mochila grande, com vários agasalhos para distribuir, era Julho em São Paulo e estava um frio de lascar. Perguntei para o rapaz, que se chamava Atos, se ele estava precisando de agasalhos ou se conhecia alguém que precisava.

    “Tem uns menininhos que vão aparecer logo mais, aí você entrega pra eles. Eles são mesmo moradores de rua, eu ainda tenho meu espaço.”

    Só balancei a cabeça e mudei de assunto. Continuamos conversando, jogando papo fora, tentando entender a vida. Trocamos experiências e estava sendo ótimo ouvir alguém.
    Os meninos chegaram, cumprimentaram Atos e falaram um “oi” distante para mim.

    “Esses são os meninos que falei que gostariam das roupas.”

    Tirei da mochila todos os agasalhos e distribuí.

    “Vai ser útil para vocês?”, eu perguntei.

    “Claro moça, mó frio dá porr*!”, achei graça no jeito que falou, “Ah, e toma aqui uma bala, não tenho mais nada para te dar, então toma aqui uma bala”.

    Aquela era uma das balas da caixa que ele estava vendendo. Meu coração apertou, porque não queria aceitar, então só disse “você precisa mais dessa bala do que eu, pode ficar”.

    O menino ficou quieto por um tempo, mas depois disse:

    “Hoje eu recebi três caixas de bala para vender e cinco agasalhos, dar essa bala para você é o mínimo que eu posso fazer.”

    E eu aceitei. Meu peito apertou, mas eu aceitei. E deu para ver em seu olhar que ele também teve de aceitar que dar a bala era o possível para ele fazer naquele momento, como forma de gratidão. Deu para ver em seu olhar que ele tinha de aceitar o que acontecia com ele porque só aceitando que ele poderia fazer algo a respeito. E meu peito apertava. Escrevendo isso, meu peito aperta.

  Aconteceu muita coisa depois disso, mas esse momento dele me dando a bala como forma de agradecimento me pegou de jeito no peito. Ter que aceitar que existem pessoas que vivem assim é algo que me pesa muito o coração, e para muitas pessoas que vivem assim, também é difícil aceitar a situação que estão. Mas elas aceitam, porque não dá para resistir. E cabe a mim também aceitar, para poder um dia fazer algo maior para todas elas. É aceitando que a mudança flui.

 No fim, o que quero falar é: não resistam, aceitem. Mas não aceite e “deixe o universo trabalhar ao seu favor”. Se imponha. Seja uma pessoa ativa na sua vida. Aceitar que essa é sua vida, seus sentimentos, seus problemas é um bom começo para se tornar ativo. Aceitar que, apesar de você não controlar muitas coisas, você é capaz de controlar se escolhe aceitar ou não. Então, escolha aceitar.

 Sofra e aceite o sofrimento. Não resista ao sofrimento. E não resista ao amor. Não resista às coisas boas que te acontecem, nem às ruins. Aceite. É só isso que tenho para te dizer: aceite.

3 comentários sobre “Quanto mais resistimos, mais difícil a aceitação

    • Ingrid, muito obrigada pelo comentário. Fiquei muito, mas muito feliz mesmo por ter compartilhado comigo isso! Obrigada do fundo do meu coração. Espero que aprecie outros textos meus futuramente!
      Estou te acompanhando por aqui, também!

      Curtido por 1 pessoa

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