A aceitação reduz o sofrimento

Por volta dos meus 10 anos minha cachorra morreu. Lembro de minha mãe dando a notícia e eu balançava a cabeça dizendo “não, não, não”. Não conseguia aceitar, não queria aceitar. Como poderia? Falaram que minha melhor amiga não está mais na Terra – e eu não estava pronta para viver sem ela.

Ninguém está preparado para perder alguém que ama – mesmo quando está. Mas se eu houvesse consciência de que a morte é um processo natural e que “está tudo bem” acontecer, meu sofrimento poderia ter sido menor. Ou seja, se eu houvesse aceitado conscientemente que a morte é inevitável, muitas dores teriam sido evitadas.

O luto e sofrimento durou anos. Todo dia acordava na esperança de que sua morte foi apenas um delírio e nos veríamos pela manhã. Era preenchida por falsas esperanças. Me iludia resistindo à verdade. Noites de gritos, culpa e raiva sem fim, viraram rotina. Um sofrimento muito doloroso se apossou de mim. O tempo foi passando e passando, até que um dia uma chave virou na minha cabeça e percebi o quão incoerente era não aceitar um fato.

Fatos são fato; o céu é azul, o sol queima e o vento apaga vela acesa. Fatos são fatos; seres vivos morrem, a dor vai vir, mas você precisa aprender a lidar com ela – não a se entregar.

A chave virou graças a maturidade adquirida enquanto trabalhava a tríade resistência-sofrimento-aceitação. O engraçado é que eu trabalhava essa tríade sem saber. Todos nós, constantemente, estamos trabalhando nesta tríade (até comentei isso com minha terapeuta). O motivo? Essa é a única maneira de superar desgostos da vida.

A todo momento resistimos a situações que nos desagradam e resistir a algo, bom ou ruim, é uma escolha. O que não é uma escolha é sofrer. Sofrer é natural, faz parte – mas é uma escolha, consciente, o prolongar ou não. Quando você resiste demais a determinado contexto, você prolonga desnecessariamente um sofrimento – já parou para pensar? A solução para contornar esse problema é uma só: aceitar.

A partir da aceitação o sofrimento é passível de reduzir. A consequência? Nossa cabeça fica mais ordenada para pensar, nos permitindo, enfim, ir atrás de soluções lógicas.

Quando falo sobre aceitar, talvez você se pergunte “aceitar o que?”, bom, eu te respondo: aceitar a situação merda que você está, aceitar aquele problema difícil que está passando, aceitar seus sentimentos de raiva, de dor, de estresse, ódio. Aceitar sua paixão por alguém que não te corresponde, que seu cachorro que você tanto ama morreu, que está atolado de dívidas… Aceitar tudo o que você tenta resistir.

A solução é encarar de frente suas angústias e as abraçar, dizendo “tá tudo bem, eu to te vendo, não vou te ignorar ou te silenciar”. Aceitar que você é um ser humano, que não tem como você ser perfeito. Aceitar que há situações que não estão no seu controle. Aceitar que é aceitando que as melhores soluções vão vir até você. É aceitando a vida da forma como é, que a vida flui.

Foto de Keegan Houser no Pexels

Em 2019 passei por um dos períodos mais turbulentos da minha vida, e quando tudo parecia vazio eu ia andar à noite pela Avenida Paulista. Nessas caminhadas muitas histórias se acumularam, mas uma que me marcou mais. Foi ela que me ensinou essa lição, a de aceitar onde estamos – e não só isso, mas também de entender onde o outro está.

Era por volta das 21h, de uma sexta-feira. Sentei na frente do banco Safra, ao lado de uma das entradas da Rua Augusta. Fumava meu cigarro com a cabeça perturbada e um rapaz, de no máximo 30 anos, se sentou ao meu lado.

Suas roupas eram velhas, seu cabelo estavam com dreadlocks e sua mão usava uma daquelas luvas que mostram os dedos. Ele também fumava.

Não sei quem puxou assunto com quem primeiro, mas no meio da conversa ele me pediu para trocarmos dois cigarros, ele queria provar do meu. Dei o maço inteiro a ele.

Carregava comigo uma mochila grande, com agasalhos para distribuir, era julho, em São Paulo estava um frio de lascar. Perguntei para o rapaz, que se chamava Atos, se ele estava precisando de agasalhos ou se conhecia alguém que precisava.

“Tem uns menininhos que vão aparecer logo mais, aí você entrega pra eles. Eles são mesmo moradores de rua, eu ainda tenho meu espaço.”

Balancei a cabeça como quem entendeu e mudei de assunto. Continuamos a conversar, tentando entender a vida. Trocamos experiências e estava sendo ótimo ouvir alguém.
Os meninos chegaram, cumprimentaram Atos e me cumprimentaram com um “oi” distante.

“Esses são os meninos que falei que gostariam das roupas.”

Tirei da mochila todos os agasalhos e distribuí.

“Vai ser útil para vocês?”, eu perguntei.

“Claro moça, mó frio dá porr*!”, achei graça no jeito que falou, “Ah, e toma aqui uma bala, não tenho mais nada para te dar, então toma aqui uma bala”.

Aquela era uma das balas da caixa que estava vendendo. Meu coração apertou, não queria aceitar, então disse “você precisa mais dessa bala do que eu, pode ficar”.

O menino ficou quieto por um tempo, depois disse:

“Hoje eu recebi três caixas de bala para vender e cinco agasalhos, dar essa bala para você é o mínimo que eu posso fazer.”

E eu aceitei. Meu peito apertou, mas eu aceitei. Deu para ver em seu olhar que ele também teve de aceitar que dar a bala era a única coisa que ele podia fazer naquele momento, como forma de gratidão. Deu para ver em seu olhar que ele precisava aceitar o que acontecia, porque só aceitando que poderia fazer algo a respeito. E meu peito apertava. Escrevendo isso, meu peito aperta.

Aconteceu muita coisa depois, mas foi esse momento, dele me dando a bala como agradecimento, que me pegou de jeito. Ter que aceitar que existem pessoas que vivem assim me pesa o coração. E sei que para muitas pessoas que vivem assim, também é difícil aceitar a situação que estão. Mas elas aceitam, porque não dá para resistir. E cabe a mim também aceitar, assim um dia, quem sabe, fazer algo maior para todas elas. É aceitando que a mudança flui.

No fim, o que quero falar é: não resistam, aceitem. Mas não aceite e “deixe o universo trabalhar ao seu favor”. Se imponha. Seja uma pessoa ativa na sua vida. Aceitar que essa é sua vida, seus sentimentos, seus problemas é um bom começo para se tornar ativo. Aceitar que, apesar de não ter poder para controlar muitas coisas, você é capaz de controlar se escolhe aceitar ou não. Então, escolha aceitar.

Sofra e aceite o sofrimento. Não resista ao sofrimento. Não resista ao amor. Não resista às coisas boas que te acontecem, nem às ruins. Aceite. É só isso que tenho para te dizer: aceite.

5 comentários em “A aceitação reduz o sofrimento”

  1. Realmente, disse tudo.
    É engraçado, é só um simples fato do “Eu aceito” Mas as vezes, a gente só nega aceitar. Amei o texto Sofia. Já vou ler outros.

    1. Ingrid, muito obrigada pelo comentário. Fiquei muito, mas muito feliz mesmo por ter compartilhado comigo isso! Obrigada do fundo do meu coração. Espero que aprecie outros textos meus futuramente!
      Estou te acompanhando por aqui, também!

Agora é sua vez de escrever!