A salvação da humanidade: você e Arte

Não conheço uma só palavra que seja passível de definição sem estar inserida num contexto. “Arte”, por exemplo, na música é a ópera, a canção, a peça; na dramaturgia, é o teatro, o roteiro; na cinematografia, é o cinema; nas artes plásticas, é a tela, a pintura; na literatura, é a poesia, o conto, o romance; e poderia ir assim infinitamente.

Contudo, apesar da necessidade de um ambiente para definir palavras, antes da definição exata, há a essência do que ela quer passar; independente do que seja arte e do que é feita – melodia, letras, corpos, cores – o que ela representa é igual em todos os casos: expressão.

Indo além da expressão: exposição. Arte é uma exposição – não importa se é pública ou pessoal.

a salvação da humanidade: você e arte
Foto de Lisa no Pexels

Ainda se sabe pouco sobre os motivos, tão intrínsecos, que fazem o homem se encantar tanto por essa forma de se expôr. A arte parece ser aquilo que o homem tenta traduzir dentro de si, mas não consegue – então seria isso o que os primeiros hominídeos tentaram fazer ao desenhar nas paredes das cavernas? Tentaram traduzir pensamentos e ideias, porque seu próprio corpo não era capaz de o fazer?

Será que não eram capazes, ainda, de se comunicar através da linguagem, da fala, e apelaram para desenhos, adereços e traços em paredes?

Antes da comunicação falada, provavelmente veio a comunicação corporal, essa forma de se expôr corporalmente não seria o início do teatro? Da dança?

Resquícios de rituais e adorações são os vestígios de arte que temos; os totens, as estatuetas, a montagem de altares; todas essas coisas são formas que o humano teve de conseguir expor e apresentar à natureza sua adoração.

Em seguida, com a adoração da natureza, vieram os deuses, que nada mais são do que partes dessa natureza complexa. Até hoje sabemos o quanto é difícil digerir as descobertas perante essa grande mãe. A causadora de tudo.

Seu funcionamento se mantém extremamente abstrato para nossas mentes mortais, até hoje, mesmo depois de tantos avanços tecnológicos as questões não cessam.

Foto de John-Mark Smith no Pexels

Se a linguagem for advinda da arte, a arte, de certa maneira, é a mãe de todas as ciências. O ser humano é um artista por natureza, nosso pensamento é artístico. Ter um pensamento artístico quer dizer: um pensamento curioso, questionador e compreensível.

Crianças são artistas natas, inclusive, defendo a tese de que ser “criança” é uma habilidade. Ser criança é além de uma fase da vida, é uma habilidade pessoal que temos, alguns de forma mais desenvolvida que outra – isso porque ao longo da vida as pessoas adultas costumam negligenciar esse instinto intrínseco.

Graças a habilidade “ser criança” que o ser humano foi capaz de chegar onde está; graças ao pensamento inato de “ser artista” que o ser humano chegou onde chegou.

Nossas raízes se encontram ali. Não sei dizer ainda onde é esse ali, mas sinto que estou caminhando cada vez mais para perto. Estou cavando um buraco fundo e sinto que as respostas acabam chegando até mim (ou será que sou eu que chego até elas?).

Foto de Mike Chai no Pexels

Nos dias atuais, estamos tão afastados da nossa natureza – e quando falo isso não quero dizer que devemos todos andar pelados por aí, construir casas com folhas ou comer apenas o que fomos coletar e caçar; quero só dizer: estamos afastados da nossa natureza.

O ser humano, até onde sabemos, é o único ser do reino animal capaz de se afastar do que seus instintos lhe propõe – mesmo que alguns indivíduos ajam de maneira impulsiva, são momentos de exceção.

Esse afastamento não é por acaso. Nos afastamos porque acreditamos que é o melhor, o “ético”, mas a realidade é que não nos faz nada mais civilizados. Se pegarmos a definição de “civilizados” pelo dicionário é algo como “indivíduo cortês, bem-educado, que tem civilização”. Será que alguém realmente acredita que vivemos em tempos civilizados? Será que alguém acredita que vivemos em tempos onde as pessoas têm civilização e são educadas?

Bom, não posso falar por todo mundo, então vou falar pelas pessoas com quem já conversei: não importa o posicionamento político do indivíduo, nenhuma dessas pessoas acham que está tudo bem com a sociedade atual – e os motivos não importam, a questão é todos com quem conversei e com quem essas pessoas conversaram apontaram defeitos na forma que vivemos e governamos. Mostraram-se indignadas com a maneira com que nos expressamos, como lidamos com os nossos dias e com nossa vida.

Isso responde se as pessoas acham que somos seres educados: não acham.

Ou seja, como se não bastasse o fato de estarmos na pior, as pessoas sabem disso, e ao invés de tentarem achar um consenso e resolver os problemas, estão bombardeando cidades, matando por dinheiro, destruindo ecossistemas inteiros, defendendo apenas interesses próprios – porque, convenhamos, é da natureza humana o egoísmo, mas viver sendo apenas e exclusivamente egoísta? Não fomos programados para isso. E mesmo se formos, a consciência nos dá a possibilidade de ir contra nossa programação.

O ser humano precisa entender que ele morre. Ele e tudo ao redor dele vai morrer, então não basta apenas “viver o melhor da vida” se não tivermos consciência de que vamos morrer.

Sabendo da sua finitude, o ser humano pode fazer disso um estímulo para fazer algo que pode perdurar para sempre. Seja tocando a vida de um indivíduo que passará a lição para outras pessoas; seja tocando a vida de nações e sociedades inteiras.

Nossa existência é estabelecida, e se sustenta, numa grande rede de interações biológicas e sociais, mas neste momento essa rede se encontra balançando em frequências diferentes. Tudo vibra de forma irregular, isso gera barulho onde era para ser música, entende? Isso gera desconexões, furos, tristezas, angústias, separações. O ser humano hoje tenta ser tudo, menos humano.

E se fosse apenas alguns indivíduos que se comportassem assim, apenas algumas maçãs podres, tudo bem, mas chegamos em um ponto em que todos estão convertidos para algo que nem sabem o nome. Todos vivem a vida focando em algo que nem sabem bem o que é.

Todos apresentam um propósito pessoal comum, todos estamos aqui em busca do melhor para nós, e não seria o melhor para nós ter uma boa casa? Se eu já tenho uma boa casa, o que custa eu ajudar o outro a ter uma boa casa também? O que custa eu ajudar o outro a ter alimento, assim como eu? Se eu já tenho tudo porque preciso de mais? Será que esses grandes bilionários e milionários não percebem a ambição que se afogam? 

Foto de Burak Kebapci no Pexels

Eu sou uma pessoa extremamente ambiciosa, desejo conquistar o mundo, tocar corações e ser eternizada por tanto tempo quanto o eterno se permite existir, mas quando minhas ambições começam a extrapolar minhas necessidades reais e alcançam luxos exorbitantes dou três passos para trás e analiso a situação que me encontro, ou o pensamento que está me dominando.

A ideia de ser bilionária, milionária, ter dinheiro, carros chiques, uma casa gigantesca com infinitos livros, roupas e mais roupas, obras plásticas originais que custam 60 milhões, tudo isso e muito mais são desejos meus, mas são desejos que foram sendo construídos em mim, não nasci com eles. Talvez, dentre todos os desejos que tenho, o que realmente sempre me guiou e me tocou foi o desejo de querer fazer a diferença. Esse é meu propósito. Esse talvez seja o propósito de todos nós.

Fazer a diferença não é mudar o mundo e a cabeça de todas as pessoas, é tocar a vida de quem passa por nós, é ensinar algo e levar algo do contato que tivemos com elas.

Cada um faz a diferença do jeito que pode, do jeito que se desenvolveu, com as habilidades que tem. Há pessoas, como é meu caso, que lida bem com pessoas e que é extremamente curiosa, quer desbravar o mundo inteiro, e meu propósito se casa com isso. Há pessoas que se dão bem nas artes em geral e vão tocar as almas se utilizando disso. Há pessoas que ensinam de maneira deliciosa, e aí seu propósito é ensinar algo. Na verdade, o propósito de todo mundo é ensinar algo, todo mundo está aqui para ensinar (de forma consciente ou inconsciente) e aprender (de forma consciente e inconsciente). Mesmo que não estejam aqui para isso, continuam aqui por isso.

O aprendizado, o erro, a arte, a lição, ser criança, todas essas coisas conectam nós humanos com nós humanos; nos conectam com a natureza pessoal, social e biológica das coisas.

Foto de Ksenia Chernaya no Pexels

Somos todos humanos e precisamos perceber isso. Meu propósito é ensinar os outros a serem humanos, o que nos faz humanos, o que é ser humano. Esse é meu propósito. Meu propósito é dar voz a quem precisa e fazer humanos perceberem que essas pessoas silenciadas também são humanas; desenvolver empatia, mostrar que erramos, mostrar que conquistamos, que somos, que vivemos, que andamos, que moramos nessa grande rede de interações.

Neste exato instante me sinto preenchida de gratidão por ter tido essa epifania, esse despertar, esse estalo, me sinto livre de todos os medos, me sinto preenchida com coragem, com força, com determinação. Eu sei o que quero, eu sei onde quero chegar, eu sei onde eu tenho que chegar. Escrever me ajuda a enxergar de forma clara e eu sou eternamente grata à escrita, minha forma de me expôr, a melhor forma que encontrei de me expôr.

Antes de eu saber o que eram livros, eu perambulava por entre as estantes e retirava um à um das prateleiras; os abria e folheava, vez ou outra rabiscava, mas sem saber o que rabiscava.

Hoje, faço os mesmos movimentos, as mesmas danças, me vejo perambulando por entre as estantes, retiro livro por livro, abro um, abro outro, marco algo ali, escrevo algo aqui, e sinto que é isso, os livros foram minha chave de descoberta sobre o mundo; os livros me devolveram a vida, me devolveram a vontade, me salvaram de mim e desse mundo.

Quero que saiba que existe uma Arte para você. Uma Arte que vai te salvar e abrir seu olhar. Saiba que há um universo desconhecido do lado de fora da sua casa, esperando seu aval para entrar. Nós somos seres complexos, com muito poder em mãos – e é uma escolha nossa saber como o aplicar.

Por isso digo: você e Arte são a salvação da humanidade.

Agora é sua vez de escrever!

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